Manuel Quinteiro Gomes

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“Fui preso na oficina de tinturaria da Sociedade de Lanifícios do Tortosendo, onde eu trabalhava”

Manuel Quinteiro Gomes

Registo Geral de Presos n.º 26 508
Cadeia do Aljube – 23.12.1963
Depósito de Presos de Caxias – 14.02.1964
Cadeia do Forte de Peniche – 27.09.1964
Prisão Hospital São João de Deus – 18.05.1966
Cadeia do Forte de Peniche – 11.06.1966
Libertado em 25.01.1967

 

Fui preso [em dezembro de 1963] na oficina de tinturaria da Sociedade de Lanifícios do Tortosendo, onde eu trabalhava.
Um dos chefes de serviço de uma outra secção entrou na oficina, a fazer-me gestos, a ver se eu [ainda] podia fugir. Mas já vinham os dois republicanos com ele.
A PIDE estava no escritório da firma, mas não entrou lá dentro [da oficina]. A GNR é que me foi buscar e disseram-me “Faça o favor de nos acompanhar ali ao escritório”.
Claro que já estavam [presos] alguns dos colegas e eu já estava a contar [com isso]. A minha infelicidade foi a queda de um nevão uns dias antes que impediu que eu atravessasse os Pirenéus. Quando não eu já lá não estava!
Fui preso porque pertencia à organização do Partido Comunista Português.

[Quando estava preso] “mandei um poema à minha mãe. Correu o boato no Casal da Serra e toda a gente me queria mandar coisas [para a prisão]. Eu só podia receber 30 peças de fruta de cada vez e a minha mãe [quando veio de visita] trouxe-me mais de duzentas!
O chefe dos guardas quando viu disse-me: – “Ó Sr. Manel, isso não pode ser!…”.
E eu respondi: “Eu estou há onze meses sem uma visita. Não queira que eu diga à minha mãe para levar [a fruta] outra vez. O senhor se quiser dar, dê, se quiser deitar fora, deite, mas eu não digo à minha mãe para levar [de volta]. E ele mandou limpar uma arrecadação e encheu-a de fruta.”

Poema à Mãe

“Ó Mãe que tanto esperas
Pelo filho que está ausente
Já não pareces quem eras
Perdeste a Fé, tu que eras crente.

Não chores querida Mãe
Por me veres onde estou,
Pensa antes na nossa vida
Naquele longo caminho
Que o trabalho nos ensinou.”

A minha pior época foi quando nos mandaram para a Soares dos Reis no Porto, para a PIDE do Porto. Eram umas instalações de cimento. Aquilo fazia uma desidratação! O Dr. Vasques Silva perdeu 16 Kg nos três ou quatro meses em que estivemos lá – fomos em julho e viemos de lá em outubro. O Mário Barreto 13 Kg. É que mesmo em calção todo o dia, transpirávamos! Era como a Frigideira do Tarrafal.

As condições no Porto eram péssimas, péssimas. E a alimentação então?! Era tão ordinária, tão ordinária! Um dia pedi para me comprarem um pacote de manteiga e uma faca para pôr a manteiga. Compraram-me a faca, mas não compraram o pão. Tinha a manteiga, mas não tinha o pão!

A nossa transferência para o Porto teve um objetivo fundamental da PIDE. O Tribunal Plenário de Lisboa tinha uma série de advogados que defendiam os presos com unhas e dentes. No Porto não acontecia isso. Nós fomos defendidos por um advogado do Fundão que era um estreante e não tivemos sorte. E puseram lá três juízes, todos com mais de 70 anos, que diziam o que a PIDE mandava!…
A conclusão a que eu e outros chegamos foi esta: fomos vítimas da repressão, dum julgamento fantoche e depois com a agravante da rapaziada toda [companheiros] termos ajudado alguns a fugir para França.

Cadeia do Forte de Peniche

As visitas aconteciam com muito pouca frequência porque as deslocações eram muito irregulares para virem de transportes e as finanças eram baixas. De forma que isso acontecia só de tempos a tempos.

Na Cadeia de Peniche o recreio era feito por pisos separados, nunca se juntavam dois pisos. Era sempre um piso de cada vez.

O pior que passei na cela foi [por causa de] um circo que esteve no Largo aqui em Peniche, que tinha lá um altifalante, que passava o dia a dar música. E então estava no auge, a canção do António Mourão “Ó tempo volta para trás”. Eh pá! As centenas de vezes que eu ouvi aquela música! E eu a dizer para mim mesmo: “Então se o tempo volta para trás nunca mais daqui saio!”.

Em Peniche era às segundas-feiras que se ligava a caldeira [da água] para se tomar banho. E eu, por uma questão de tendência, sempre gostei de tomar banho. [O banho] era uma questão que era decidida pelo guarda que estava de serviço. Eu tocava à campainha e perguntava: “Senhor Guarda posso tomar banho?”. “Hoje não é dia de banho!”. Havia alguns que não autorizavam. Mas havia outros que diziam: “Hoje não é dia de ligar a caldeira”. Como aqui é zona marítima e as águas são muito menos agressivas do que lá na montanha, na Serra da Estrela, eu respondia: “Mas eu tomo com água fria”.
Havia guardas que autorizavam: “Então se toma com água fria, vá tomar.”

Solidariedade entre trabalhadores

Até no trabalho a solidariedade se fazia de muitas maneiras. Havia aqueles encarregados [das fábricas] que às vezes mandavam as pessoas vários dias de castigo para casa. Suspendiam-lhes o trabalho e diziam: “Você vai de castigo dois dias, três dias!”. Era aquela repressão no trabalho!
De forma que nós ativistas, dos quais eu fazia parte, organizámo-nos de tal forma que, quando um colega era posto de castigo, fazíamos-lhe o ordenado. Fazíamos uma cotização entre todos para lhe fazermos o ordenado.

E por essas e por outras lá fomos [para a cadeia] pagar a dívida que tínhamos!

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